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Na mielomeningocele, o nível anatômico da lesão não descreve todo o funcionamento da marcha. A classificação MMFC ajuda a organizar as informações motoras relacionadas à mobilidade. Por isso, a equipe precisa relacionar o exame muscular ao uso de órteses, dispositivos e estratégias de deslocamento.

Duas pessoas com uma descrição anatômica semelhante podem apresentar necessidades diferentes para se deslocar. Além disso, o que funciona em um trajeto curto pode exigir outro apoio na comunidade. Assim, uma classificação consistente facilita a comunicação entre especialidades e ajuda a definir quais aspectos da função precisam de acompanhamento.

O que a classificação MMFC organiza

MMFC significa Myelomeningocele Functional Classification, ou Classificação Funcional da Mielomeningocele. A proposta organiza quatro grupos a partir da função de músculos importantes para a mobilidade. Dessa forma, aproxima a descrição clínica das condições motoras relacionadas à marcha e às necessidades de suporte.

O profissional avalia a função muscular e utiliza os critérios da classificação para atribuir o grupo. Ao mesmo tempo, registra a mobilidade observada e os recursos usados no cotidiano. Dessa forma, essa leitura integrada ajuda a interpretar o resultado, embora a categoria não dispense o exame das demais condições que influenciam a locomoção.

A MMFC não resulta da soma dos graus de força muscular. Portanto, o avaliador precisa conhecer os grupos musculares que distinguem suas categorias. Por isso, somar resultados ou escolher um nível apenas pelo equipamento utilizado pode produzir uma classificação que não corresponde aos critérios do instrumento.

Os quatro grupos da classificação MMFC

Na proposta de Dias e colaboradores, os grupos seguem a preservação de funções musculares específicas. A síntese abaixo apresenta os critérios centrais, sem substituir o exame completo.

  • MMFC1: Ausência de função do quadríceps.
  • MMFC2: Função do quadríceps e dos isquiotibiais mediais, sem função do glúteo médio.
  • MMFC3: Função do quadríceps, dos isquiotibiais mediais e do glúteo médio, sem função do gastrocnêmio-sóleo.
  • MMFC4: Preservação também da função do gastrocnêmio-sóleo.

A proposta considera funcionais os músculos com força manual de grau 3 ou mais. Entretanto, para os isquiotibiais mediais e o glúteo médio, utiliza grau 2 ou mais. Por isso, esses critérios exigem atenção na execução e no registro dos testes, inclusive quando os lados apresentam resultados diferentes.

Os grupos ajudam a discutir possibilidades e necessidades de suporte, mas não determinam uma trajetória individual obrigatória. Além disso, uma categoria isolada não informa quanto a pessoa caminha diariamente. Para essa pergunta, a equipe precisa acrescentar dados sobre mobilidade habitual e participação.

Como aplicar a classificação MMFC na rotina

O exame deve seguir os critérios musculares do instrumento, com registro bilateral dos achados relevantes. Em seguida, a equipe documenta as condições da avaliação e os dispositivos utilizados para a mobilidade. Dor, fadiga ou uma restrição recente também merecem registro, pois podem interferir na interpretação do desempenho.

A entrevista com a pessoa e a família complementa o exame. Por exemplo, alguém pode caminhar com apoio dentro de casa e preferir a cadeira de rodas em trajetos longos. Essa combinação precisa aparecer no prontuário. Assim, o uso de recursos diferentes pode ampliar a autonomia e a participação conforme a demanda do ambiente.

A versão brasileira também passou por tradução, adaptação cultural e análise de propriedades psicométricas. O estudo de Tedesco e colaboradores apresentou resultados favoráveis, em uma amostra pequena de pessoas com mielomeningocele. Assim, oferece suporte ao uso da classificação, mantendo a necessidade de aplicação criteriosa e interpretação individual.

Como acompanhar a mobilidade além do grupo funcional

A associação com a FMS permite descrever os apoios utilizados em 5, 50 e 500 metros. Dessa forma, a equipe relaciona a categoria funcional às demandas de casa, escola e comunidade. Além disso, essa informação ajuda a discutir adaptações e identificar situações nas quais a mobilidade habitual mudou.

Uma redução na distância percorrida não explica, por si só, o motivo da mudança. Por isso, o acompanhamento deve considerar sintomas, exame neurológico e musculoesquelético, condições dos dispositivos e alterações da rotina. Portanto, quando surgem perdas funcionais ou novos sinais clínicos, a avaliação orienta a investigação e os encaminhamentos necessários.

Manter a mesma categoria também não significa manter todas as atividades. Por exemplo, a pessoa pode modificar sua participação ou precisar de mais ajuda sem mudar de grupo. Consequentemente, vale acompanhar metas funcionais específicas e comparar avaliações com contexto documentado. Ferramentas como o Cybilla podem apoiar a organização desses registros, enquanto o profissional interpreta a trajetória.

Materiais para aprofundar a avaliação funcional

Outros materiais podem complementar o estudo da mobilidade. Acesse os e-books disponíveis da Kinetec e consulte os conteúdos de avaliação funcional. Você também pode falar com nossa equipe sobre os recursos para sua rotina clínica.

Ver e-books disponíveis

Além disso, explore a biblioteca de e-books da Kinetec para continuar seus estudos em biomecânica e análise do movimento.

Para continuar essa discussão, participe do encontro gratuito sobre mielomeningocele e MMFC, em 29/10, às 13h, pelo Google Meet, com Cristian Zaniboni e o Prof. Guilherme Brodt. Preencha o formulário de inscrição para participar.

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Referências

1. Kinetec. E-book MMFC Marcha e trajetória funcional. Capítulos 2 a 4. Material fornecido.

2. Dias LS et al. Myelomeningocele A new functional classification. Journal of Children’s Orthopaedics. 2021;15(1):1-5. Consultar fonte

3. Tedesco AP, Dias L, Nicolini-Panisson RD. Versão brasileira da classificação funcional de mielomeningocele Tradução adaptação cultural e propriedades psicométricas. Revista Brasileira de Ortopedia. 2023;58(6):e944-e951. Consultar fonte