A dor no joelho raramente se explica apenas pelo ponto onde ela aparece. Embora o sintoma esteja localizado, a causa costuma envolver o modo como o corpo organiza o movimento durante a marcha.
Na prática clínica, muitos atendimentos ainda focam exclusivamente na estrutura dolorida. No entanto, o joelho integra um sistema dinâmico que envolve tornozelo, quadril, pelve e tronco. Portanto, quando o padrão de marcha se altera, toda a distribuição de cargas se modifica.
Dor no joelho não é, na maioria das vezes, um evento isolado
Em muitos casos, o paciente apresenta exames de imagem sem alterações estruturais significativas. Mesmo assim, relata dor persistente. Isso acontece porque o problema nem sempre está na anatomia estática, mas sim na forma como o corpo absorve e transfere carga a cada passo.
Alterações sutis no padrão de movimento mudam a distribuição de forças ao longo do membro inferior. Além disso, pequenas assimetrias podem gerar sobrecargas repetitivas. Como resultado, o joelho passa a receber estímulos mecânicos excessivos, mesmo quando não há lesões evidentes.
Consequentemente, tratar apenas o local da dor pode aliviar o sintoma no curto prazo. Entretanto, se o padrão de movimento permanece alterado, a causa funcional continua ativa.
O impacto das alterações na marcha
A marcha representa um dos movimentos mais repetidos do dia a dia. Cada passo exige coordenação entre múltiplos segmentos corporais. Quando ocorre uma compensação, mesmo discreta, o sistema inteiro se reorganiza.
Por exemplo, uma limitação de mobilidade no tornozelo pode aumentar a demanda sobre o joelho. Da mesma forma, déficits de controle no quadril podem alterar o alinhamento dinâmico do membro inferior. Assim, o joelho absorve cargas que originalmente seriam distribuídas de maneira mais equilibrada.
Embora essas mudanças pareçam pequenas, sua repetição constante amplia o estresse mecânico articular. Com o tempo, essa sobrecarga contribui para dor recorrente.
Por que avaliações isoladas não são suficientes
Testes estáticos ou análises segmentadas oferecem informações importantes. Contudo, eles não reproduzem a complexidade do movimento real.
Muitas compensações só aparecem durante tarefas funcionais, especialmente na marcha. Além disso, assimetrias discretas dificilmente são percebidas apenas pela observação clínica.
Portanto, quando o profissional avalia somente força isolada ou amplitude articular, pode deixar de identificar o fator que sustenta a dor no joelho.
A avaliação de marcha como ferramenta decisiva
A avaliação de marcha permite observar o corpo em ação. Ela revela compensações, padrões assimétricos e sobrecargas repetitivas que testes isolados não detectam.
Quando o clínico incorpora dados objetivos à análise, consegue quantificar variáveis como aceleração, variação angular e estabilidade dinâmica. Dessa forma, identifica padrões que o olhar humano não capta com precisão.
Além disso, a mensuração com tecnologias biomecânicas, como sensores inerciais, amplia a confiabilidade da análise. O profissional passa a basear sua conduta em dados concretos, e não apenas em percepção subjetiva.
Tratamento direcionado à função real
Quando a avaliação inclui a marcha, a conduta se torna mais direcionada. O tratamento deixa de ser reativo e passa a refletir a função real do paciente.
Em vez de focar exclusivamente no sintoma, o clínico corrige o padrão que gera sobrecarga. Assim, reduz o estímulo mecânico inadequado que alimenta a dor no joelho.
Consequentemente, o paciente tende a apresentar melhora mais consistente e menor chance de recidiva. Isso ocorre porque a intervenção atinge a causa funcional, e não apenas o efeito.
Conclusão
A dor no joelho raramente surge de forma isolada. Na maioria das vezes, ela reflete adaptações acumuladas durante a marcha.
Portanto, ignorar o padrão de movimento significa tratar apenas parte do problema. Por outro lado, quando o profissional incorpora a avaliação de marcha à rotina clínica, amplia sua capacidade de identificar compensações e distribuir cargas de forma mais equilibrada.
Em síntese, compreender o movimento é essencial para reduzir sobrecargas, orientar decisões clínicas mais precisas e diminuir a recorrência da dor no joelho.
