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AVC e Análise do Movimento: Por Que Ver Não é Suficiente na Reabilitação

O movimento após o AVC não evolui em linha reta

Depois de um AVC, a recuperação raramente segue um caminho previsível. Embora o paciente possa parecer estável, o corpo continua se adaptando o tempo todo. Muitas vezes, ele senta, levanta e dá alguns passos. No entanto, isso não significa que o movimento esteja organizado de forma eficiente.

Na prática clínica, essa fase exige atenção redobrada. Afinal, nem toda melhora visível representa uma melhora real na qualidade do movimento. Pelo contrário, o corpo frequentemente cria estratégias alternativas para cumprir a tarefa. E, embora essas estratégias permitam que o paciente continue se movendo, elas nem sempre favorecem a recuperação a longo prazo.

 

Compensações nem sempre são óbvias

Em muitos casos, as mudanças mais importantes não chamam atenção. Elas aparecem como pequenas variações de simetria, ritmo, controle ou estabilidade. Além disso, essas alterações costumam ser sutis demais para o olho humano perceber com precisão.

Por exemplo, um paciente pode distribuir a carga de forma desigual entre os membros inferiores. Ao mesmo tempo, ele pode reduzir discretamente o tempo de apoio em um dos lados. Visualmente, o padrão parece aceitável. Contudo, biomecanicamente, o corpo já opera sob compensações.

Consequentemente, quando o profissional baseia a decisão apenas na observação, ele corre o risco de atrasar ajustes importantes no plano terapêutico. E, no contexto neurológico, decisão atrasada quase sempre significa consolidação de padrões compensatórios.

 

Quando a decisão clínica atrasa, o risco aumenta

Se essas compensações passam despercebidas, o problema não aparece imediatamente. Na verdade, muitas delas não geram dor no início. Entretanto, quase toda compensação cobra seu preço com o tempo.

Primeiramente, o corpo reforça o padrão alternativo. Depois, ele automatiza essa estratégia. Por fim, o paciente passa a depender dela para executar tarefas simples do dia a dia.

Nesse cenário, o que parecia funcional começa a limitar evolução, aumentar gasto energético e elevar o risco de quedas. Portanto, confiar apenas no que parece organizado pode comprometer a qualidade da reabilitação pós-AVC.

 

Por que medir o movimento muda a conduta

Diante disso, surge uma mudança importante de mentalidade. Em vez de perguntar apenas “o paciente consegue?”, o profissional passa a perguntar “como ele está fazendo?”.

Quando a equipe mensura o movimento com sensores e ferramentas de análise biomecânica, ela obtém dados objetivos sobre simetria, variabilidade, controle postural e estabilidade dinâmica. Assim, identifica padrões que não aparecem na avaliação tradicional.

Além disso, a mensuração permite acompanhar a evolução ao longo do tempo. Se a simetria melhora, o plano avança. Por outro lado, se surgem desvios, o profissional ajusta a intervenção rapidamente. Dessa forma, o cuidado deixa de ser reativo e passa a antecipar riscos.

 

Da aparência ao dado: uma mudança de paradigma

Ver continua sendo essencial. No entanto, ver sozinho não basta. O movimento pode parecer organizado, mas estar sustentado por compensações silenciosas. Por isso, decisões clínicas não devem depender apenas da impressão visual.

Quando o movimento vira dado, o profissional ganha clareza para decidir com segurança. Ao mesmo tempo, o paciente entende melhor o que está acontecendo e participa de forma mais ativa do processo.

Em síntese, a reabilitação pós-AVC se fortalece quando combina olhar clínico e mensuração objetiva. Afinal, quanto mais cedo identificamos pequenas alterações, maiores são as chances de corrigir o trajeto e reduzir riscos futuros.