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A Verdade Sobre a Relesão do LCA: Por Que Confiar Apenas no Visual é um Risco

O retorno ao esporte após a cirurgia de reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) é, sem dúvida, um dos momentos mais esperados pelo atleta e pelo fisioterapeuta. Ao mesmo tempo, também é uma das fases mais críticas de todo o processo de reabilitação.

Mesmo com técnicas cirúrgicas modernas e meses de fisioterapia bem conduzida, uma preocupação permanece constante: o risco de relesão do LCA.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável. Afinal, como transformar a decisão de alta esportiva em algo realmente seguro e não apenas baseado na aparência do movimento?

 

O “fantasma” das estatísticas na relesão

Antes de tudo, é fundamental encarar os dados. Estudos amplamente citados na literatura, como o de Wiggins et al. (2016), apontam um cenário preocupante.

Atletas que retornam ao esporte após uma lesão de LCA apresentam risco significativamente maior de sofrer uma nova ruptura.

De forma geral, estima-se que até 25% desses atletas possam apresentar uma segunda lesão, seja no joelho operado ou no contralateral, principalmente nos dois primeiros anos após o retorno.

Esse risco, porém, não é aleatório. Ele varia conforme idade, nível competitivo e, sobretudo, a qualidade dos critérios utilizados para a liberação ao esporte.

Ou seja, o problema não está apenas no tempo de reabilitação, mas em como essa decisão final é tomada.

Por que a relesão do LCA acontece com tanta frequência?

Em muitos casos, o atleta parece pronto. À primeira vista, não há dor, a amplitude de movimento está restaurada e tarefas como corrida ou salto são executadas sem grandes limitações aparentes.

Ainda assim, parecer pronto não significa estar preparado.

A avaliação puramente visual apresenta limites claros. O olho humano, por mais experiente que seja, não consegue identificar déficits sutis, porém clinicamente relevantes, como:

  • diferenças na produção de força explosiva entre os membros

  • atrasos no tempo de reação neuromuscular

  • estratégias compensatórias no salto e na aterrissagem

  • instabilidade no controle dinâmico do joelho

Justamente por isso, esses fatores acabam passando despercebidos na avaliação tradicional, embora estejam diretamente relacionados ao risco de relesão do LCA.

Quando os dados entram, a história muda

Se a falha está na subjetividade, então a solução passa pela mensuração objetiva. O retorno ao esporte se torna mais seguro quando a decisão deixa de ser baseada apenas no “olhômetro” e passa a considerar dados biomecânicos confiáveis.

Atualmente, testes instrumentados com tecnologias de análise de movimento, como sensores inerciais de uso clínico, permitem identificar déficits que não são visíveis a olho nu.

Dessa forma, torna-se possível avaliar com mais precisão:

  • potência e simetria entre os membros, reduzindo diferenças funcionais relevantes

  • consistência do movimento, inclusive sob fadiga

  • controle da aterrissagem, fase crítica para a maioria das lesões de LCA

Consequentemente, essas informações orientam melhor a progressão da reabilitação, ajudam a ajustar o tempo de retorno e reduzem o risco de uma nova ruptura.

 O retorno seguro ao esporte é uma decisão objetiva

Em resumo, confiar apenas na aparência do movimento é um risco que não deveria mais fazer parte da prática clínica. O movimento humano é complexo demais para ser validado exclusivamente pela observação, especialmente quando o futuro esportivo do atleta está em jogo.

A biomecânica aplicada ao retorno ao esporte não substitui o olhar clínico. Pelo contrário, ela o complementa com dados objetivos e mensuráveis.

Quando o movimento é medido, ele pode ser melhor interpretado. E, quando a decisão é baseada em dados, a chance de relesão do LCA diminui de forma significativa.