No rugby, cada contato importa e cada centímetro de salto pode decidir uma jogada. No entanto, mais do que força bruta, o que diferencia um atleta preparado de um atleta em risco é a capacidade de gerar potência e, principalmente, absorver carga com controle.
Recentemente, recebemos o Dr. William Dhein em uma live exclusiva, na qual ele apresentou sua pesquisa sobre a influência do histórico de lesões musculoesqueléticas no desempenho do Countermovement Jump Rugby. O estudo deixa claro que uma lesão antiga, mesmo considerada “resolvida”, pode deixar marcas profundas na biomecânica do atleta.
Por isso, entender esses rastros é fundamental para quem trabalha com performance, prevenção e reabilitação no rugby.
Por que o Countermovement Jump é tão relevante no Rugby?
O salto vertical não é apenas sobre “pular mais alto”. No rugby, ele se relaciona diretamente com sprints, disputas aéreas e mudanças rápidas de direção, como ocorre em line-outs e situações de jogo aberto.
Além disso, o Countermovement Jump permite avaliar o Ciclo Alongamento-Encurtamento, um mecanismo essencial para esportes que exigem aceleração e desaceleração constantes. Em outras palavras, ele mostra como o atleta armazena energia na fase excêntrica e a devolve na propulsão.
Como explica o Dr. William Dhein, alturas maiores de salto tendem a se relacionar com sprints mais rápidos. Portanto, o CMJ não avalia apenas potência, mas também eficiência neuromuscular.
Força não é potência: o perigo da falsa simetria
Um dos pontos mais importantes da pesquisa é o alerta sobre a chamada “falsa alta”. Muitas vezes, o atleta recupera a força máxima após uma lesão, apresentando simetria em testes de dinamometria. No entanto, isso não significa que a potência tenha sido restaurada.
Força é diferente de potência. Enquanto a força mede o quanto o músculo consegue produzir, a potência envolve força e velocidade. No rugby, a velocidade de aplicação da força costuma ser mais determinante do que o valor máximo isolado.
Para investigar isso, o estudo utilizou sensores inerciais em 30 jogadores, incluindo atletas do clube Farrapos e da Seleção Gaúcha. Dessa forma, foi possível identificar déficits que passam despercebidos na avaliação visual.
Variáveis biomecânicas que realmente importam
Ao invés de olhar apenas para a altura do salto, o estudo focou em métricas clínicas avançadas, que revelam a qualidade do movimento.
O índice de impacto, por exemplo, compara a força de decolagem com a força de aterrissagem. Idealmente, esse valor deve ser próximo ou inferior a 1. Valores acima disso indicam que o atleta aterrissa com mais impacto do que consegue produzir na subida, o que sugere déficit excêntrico e maior risco de lesão.
Além disso, a Taxa de Desenvolvimento de Força, medida em N/s, mostrou-se crucial. No rugby, atingir o pico de força rapidamente é mais relevante do que apenas ser forte. Quanto maior a RFD, maior a capacidade explosiva.
Outro parâmetro importante foi a rigidez, ou stiffness. Ela indica o quanto o corpo funciona como uma mola eficiente, armazenando energia elástica na fase excêntrica e devolvendo-a na propulsão.
Forwards e backs: corpos, demandas e riscos diferentes
O estudo também confirmou diferenças claras entre as posições. Os forwards, com média de 100 kg, estão mais expostos a impactos constantes e, por isso, apresentam maior prevalência de lesões. Consequentemente, tendem a ter índices de impacto mais elevados, influenciados pela maior massa corporal.
Já os backs, mais leves e ágeis, apresentaram uma relação direta entre altura do salto e RFD. Em outras palavras, quem salta mais alto nesse grupo é quem consegue recrutar fibras de contração rápida com maior eficiência, algo decisivo para aceleração e mudança de direção.
O fator tempo e a principal conclusão
Um dado que chama atenção é o tempo de carreira. Os atletas com histórico de lesão tinham, em média, sete anos de prática, enquanto os não lesionados apresentavam cerca de quatro anos. Isso reforça que o rugby, ao longo do tempo, acumula microtraumas que impactam a biomecânica.
Embora a altura do salto possa parecer semelhante entre atletas lesionados e não lesionados, devido a compensações motoras, é na qualidade da aterrissagem e na velocidade de produção de força que surgem os sinais de alerta.
Como conclui o Dr. William Dhein, o objetivo não é apenas fazer o atleta voltar a jogar, mas garantir que ele volte mais eficiente, mais preparado e, acima de tudo, mais seguro.
