A avaliação de pacientes/alunos é imprescindível para um atendimento de qualidade por parte de qualquer profissional.

Ao tratar-se de intervenções voltadas às áreas do movimento humano (fisioterapia, educação física, terapia ocupacional, dança), muitas vezes a dificuldade está em saber qual avaliação eleger dentre as tantas disponíveis. Muitos profissionais limitam-se a avaliações estáticas, o que acaba restringindo seu olhar ao aluno/paciente, muitas vezes sendo uma visão insuficiente para um diagnóstico mais acurado a respeito das necessidades daquele indivíduo.

Por exemplo, ao atender um paciente com queixa de dor, o profissional deve ter em mente que não apenas a postura semiestática em pé (comumente utilizada em avaliações posturais), mas também posturas ao sentar, pegar e carregar objetos se associam à ocorrência de dor e de sobrecargas da estrutura muscular e articular (NOLL, CANDOTTI e VIEIRA, 2013). Ou seja, o paciente pode ter uma ótima postura ao posicionar-se para realizar uma avaliação estática, porém apresentar diversos desalinhamentos em uma situação dinâmica.

No mesmo sentido, outra avaliação essencial para um atendimento de qualidade refere-se à marcha. Disfunções na marcha estão dentre as queixas mais frequentes de sujeitos em centros de reabilitação e são, muitas vezes, um dos focos do tratamento de diversas doenças (OATIS, 2009). Manter uma marcha funcional em pacientes com as mais diversas patologias, ou mesmo em idosos saudáveis é essencial para a manutenção da autonomia, e com ela, da qualidade de vida e de aspectos psicossociais nos mais diversos acometimentos.

 

Avaliações quantitativas da marcha fornecem informações importantíssimas e que dificilmente seriam coletadas em uma avaliação estática, ou em uma anamnese, pois o paciente muitas vezes não percebe as alterações que estão se iniciando. Por exemplo, se um paciente, por alterações decorrentes da idade ou de alguma patologia, começa a apresentar uma marcha com menor amplitude de movimento do quadril, com uma característica mais “arrastada”, provavelmente essas alterações serão sutis inicialmente, e não serão percebidas até o momento em que começarem a trazer consequências, como dificuldades para subir escadas ou mesmo quedas.

Seja em idosos, seja em pacientes com potenciais alterações na deambulação, uma intervenção preventiva, sempre que possível, ainda parece a opção mais adequada. Para isso é necessário avaliar desde as pequenas mudanças que ocorrem. Mesmo que alterações iniciais na marcha sejam imperceptíveis da parte dos pacientes, ou mesmo dos familiares, estas não podem passar despercebidas pelo profissional que irá atendê-lo, afinal, quanto mais cedo iniciar uma intervenção objetiva visando especificamente as aptidões voltadas a necessidade do indivíduo, maiores serão as chances de sucesso!

Diversas metodologias e instrumentos são utilizados para avaliar a marcha, como sistemas de captura de vídeo, acelerômetros, eletromiógrafos, plataformas de pressão, plataformas de força (McGinnis, 2015). Conhecer a metodologia escolhida é essencial para uma interpretação correta. Por exemplo, ao utilizar a plataforma de força para avaliar a marcha, deve-se levar em consideração que a curva que representa o componente vertical durante a pisada pode ser analisada como um todo, e suas características serão diferentes, mesmo em uma situação não patológica, por exemplo, de acordo com a velocidade da marcha - como pode ser visto na figura adaptada de Barela e Duarte (2011):



Uma rápida olhada na imagem acima, que trás uma “curva padrão” de marcha, é o suficiente para perceber que o pico do impacto (destacado em vermelho), na marcha em velocidade lenta, tem uma magnitude de aproximadamente 50% do peso corporal, já na velocidade confortável, se aproxima de 100% do peso corporal, e em velocidade rápida é maior do que o peso corporal. Se uma curva não apresenta o pico do impacto, isso deve ser motivo de atenção por parte do avaliador, uma vez que sua ausência indica uma característica diferente do esperado em uma marcha saudável! A existência e a magnitude do pico de impacto é um dos parâmetros que se utiliza clinicamente para categorizar uma marcha, assim como a magnitude e o tempo para atingir o primeiro pico de força (destacado em azul), o segundo pico de força (destacado em verde), o suporte médio de força (destacado em roxo), dentre muitos outros...

A avaliação cinética da marcha, bem como qualquer avaliação através de qualquer metodologia, exige um conhecimento prévio dos padrões de normalidade, das características e dos resultados esperados para cada situação (jovens ou idosos, saudáveis ou com alguma patologia, etc).
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REFERÊNCIAS:

BARELA, A.M.F.; DUARTE, M. Utilização da plataforma de força para aquisição de dados cinéticos durante a marcha humana. Brazilian Journal of Motor Behavior, v. 6, n. 1, p 56-61, 2011.

McGINNIS, P. M. Biomecânica do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2015.

NOLL, M; CANDOTTI, C.T.; VIEIRA, A. Instrumentos de avaliação da postura dinâmica: aplicabilidade ao ambiente escolar.Fisioterapia em movimento, p. 203-217, 2013.

OATIS, C.A, Mechanics and Pathomechanics of Human Movement, 2 ed., Philadelphia, Lippincott Williams and Wilkins, 2009.

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