Profissionais que trabalham com o movimento humano, da reabilitação ao alto rendimento, frequentemente deparam-se com a seguinte questão:

Qual a melhor forma de avaliar o meu aluno/paciente e sua evolução?

Sabe-se que uma correta avaliação é essencial para a elaboração, acompanhamento e adaptação de uma intervenção e que, uma vez definido o plano de ação, reavaliar permite ao profissional ver o quão eficiente está sendo sua abordagem. Trabalhar com medidas objetivas permite a você fugir de abordagens “tentativa e erro” e ainda é uma forma palpável de mensurar o progresso do seu trabalho. Além disto, uma avaliação objetiva possibilita a elaboração de um relatório permitindo também ao aluno/paciente acompanhar seu progresso. Em outras palavras, avaliar é importante para você definir de forma segura o objetivo principal, para verificar se a abordagem elencada está sendo adequada para tais objetivos e adaptá-la sempre que necessário, permitindo ainda que o próprio aluno/paciente acompanhe a evolução do seu trabalho, além de ser um diferencial que pode ajudar você a destacar-se no mercado de trabalho.
Um profissional da fisioterapia querendo reabilitar a marcha, ou um profissional da educação física querendo melhorar o rendimento de um corredor pode determinar as metas e estratégias a serem utilizadas a partir de uma avaliação superficial, muitas vezes apenas “olhando o gesto” ou pode fazer uso de informações como amplitude de passada, simetria, frequência da passada e velocidade para definir e acompanhar o progresso de sua abordagem, a qual talvez seja diferente para pessoas que tenham o mesmo objetivo. Uma pequena amplitude de passada, talvez melhore ao aumentar a flexibilidade da articulação coxo-femoral (uni ou bilateral). Uma pequena frequência de passada pode indicar a necessidade de fortalecimento dos flexo-extensores de quadril e joelho. Uma velocidade que diminui ao longo do percurso pode indicar fadiga e assim por diante...
Essas informações objetivas (velocidade, frequência e amplitude de passada), dentre muitas outras, são variáveis pertencentes à cinemática - parte da mecânica que descreve o movimento, a partir de uma perspectiva espaço temporal, sem se preocupar com as forças envolvidas (WHITING; ZERNICKE, 2001; McGINNIS, 2015). A cinemática pode ser qualitativa, que vai desde, ao observar um movimento, classificá-lo dicotomicamente em bom ou ruim, até definir quais as articulações envolvidas, sendo uma avaliação subjetiva; ou quantitativa, onde se obtêm um resultado numérico (HAMILL; KNUTZEN, DERRIK, 2016). A avaliação quantitativa da cinemática é conhecida como cinemetria e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, nem sempre precisa ser algo complexo!
Parâmetros cinemáticos da caminhada e da corrida como amplitude de passada, simetria, frequência de passada, velocidade média, velocidade parcial, podem ser, por exemplo, avaliados utilizando papel pardo, uma esponja de louça, tinta guache, 1 m de barbante, caneta, trena, um cronômetro e uma câmera (NOLL et al., 2013). Ainda que testes como este possam ser uma ótima forma de avaliar escolares, dificilmente trarão informações que diferenciem o primeiro do segundo lugar em uma prova de velocidade, ou especificidades sobre a deambulação de um paciente neurológico.
Em alguns casos, seja na clínica para avaliar uma marcha patológica, seja no desenvolvimento de pesquisas que indicarão o padrão mais eficiente de movimento/intervenção, é essencial ter outras informações, como avaliar o alinhamento estático e o alinhamento dinâmico, ou quantificar os ângulos articulares de forma acurada. Da mesma forma, é importante saber se os movimentos articulares estão acontecendo na fase correta da marcha, tanto para otimizar o gesto esportivo (por exemplo, verificando se o ângulo de flexão do joelho ao contato da perna com o solo está entre 21 e 30º conforme recomendado pela literatura), quanto para evitar lesões e recidivas (verificando, por exemplo, na corrida, os ângulos de flexão do quadril e extensão de joelhos que, simultaneamente alongam o semintendinoso, o semimembranoso e a porção longa do bíceps femoral, sendo comum uma lesão por distensão no final da fase de balanceio ou no início da fase de apoio) (WHITING; ZERNICKE, 2001; HAMILL; KNUTZEN, DERRIK, 2016). Algumas dessas informações podem ser obtidas por um sensor inercial, outras, apenas com sistemas mais complexos, como a partir de câmeras e marcadores reflexivos.

Por fim, pode-se afirmar que a marcha e a corrida podem, sim, ser avaliadas de forma simples e barata!

Todavia, é imprescindível identificar quais informações você necessita, e o nível de precisão e exatidão que lhe será exigido para a escolha da metodologia adequada, seja ela simples como um teste de Cooper, ou mais complexa, como a integração de diversos sistemas com tecnologia de ponta. Para saber um pouco mais sobre o que é cinemática; cinemática padrão do tornozelo, do joelho e do quadril; aplicação da cinemática no diagnóstico de pacientes; análise clínica da marcha; rotação de tíbia e fêmur; tornozelo equino ou em dorsiflexão, entre outras questões, clique aqui.

 

REFERÊNCIAS:

HAMILL, J.; KNUTZEN, K.; DERRIK,T.R. Bases biomecânicas do movimento humano. São Paulo: Manole, 2016.

McGINNIS, P. M. Biomecânica do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2015.

NOLL, M.; CANDOTTI, C. T.; TORRE, M.; LOSS, J. F. Proposta de uma metodologia para análise cinemática da corrida na prova de 50 metros em ambiente escolar. Cinergis (UNISC), v. 1, n.2, p. 145-149, 2013.

WHITING, W. C., ZERNICKE R. F. Biomecânica da lesão musculoesquelética. Rio de Janeiro: Guanabara, 2001.

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